Bandolins










(Como fosse um par que nessa falsa triste se desenvolvesse ao som dos Bandolins).

         Seus passos deslizando no chão num ritmo lento, acompanhando sapatos pretos e bem cuidados, enquanto o velho dono do bar parecia apreciar a dança com um instrumento de cordas em mãos. Eu era só um jovem garoto que acabara de sair das barras dos pais, um pouco de dinheiro no bolso e uma obsessão ridícula por ela. O vestido balançava juntamente com o vento das janelas abertas, muito apertado até sua cintura e logo solto, num rosa claro, quase branco... tão branco quanto sua pele, lisa, a qual ansiava tocar a meses. Os cabelos cuidadosamente presos com alguns cachos escorridos no rosto, onde a maquiagem a deixava com ar de mulher. Aquela que queria ter para mim.Foram as primeiras palavras que deslizaram no papel naquele fim de madrugada, quando o crepúsculo da manhã trazia mais um dia frio. E assim me lembrara do começo da noite. Um meio sorriso irradiava nos lábios vermelhos enquanto o olhar procurava o do parceiro na dança. O homem porém desviava seus olhos a todo tempo. Talvez medo de mergulhar em tal brilho dos seus. Hipócrita. Sua finalidade era única ali, e a cumpriria assim que que o som do bandolim do velho dono do bar parasse de tocar. E quando ali se fez o silêncio, o que mais queria era que começasse a sua música novamente. Mas não aconteceu.
















(E como não, e por que não dizer que o mundo respirava mal se ela apertava assim seu colo...)


E assim como o meu, mais olhares a seguiram até as escadas, quando se fez silêncio, juntamente ao homem que dançava. Mas nenhum teve coragem de segui-los.  Me levantei de meu lugar vagarosamente então, subindo as escadas. No corredor, apenas quatro portas eram vistas. Forcei as três primeiras, aparentemente trancadas. Restava-me a quarta porta então que, para minha surpresa ou sorte, estava entreaberta. Pus-me a espiar. Pude ver quando ele a encostava de frente a parede com um tanto de força. puxando os fios de seu espartilho com rapidez, enquanto seus lábios percorriam o pescoço dela. Tirou então a peça que modelava seu corpo, jogando-a no chão, soltando seus cabelos que se revelavam compridos. Puxou-os então para trás, tocando os lábios aos vermelhos dos seus, num beijo exagerado, sem vontade da parte dela, voraz da parte dele. A alça do vestido assim escorregou, dando espaço para que ele colocasse suas mãos por dentro e as envolvesse em seus seios. Suspirei juntamente a ela quando sua saia fora erguida. Tentou virar novamente de frente a ele, sendo forçada a ficar da maneira em que estava. Os olhos se mantinham fechados.E perante a minha fascinação, não pude reparar em olhares para a minha garota, olhares presos a tal corpo e beleza, que lhes incomodavam e lhes faziam adimirar secretamente. As respirações ofegavam a cada passo dela. Vidrava meus olhos naquela cena, cravando as unhas em minha mão então. Enquanto ele percorria seu corpo com as mãos fortes demais para tal pele, sensível ao meu ver, ao mesmo tempo desabotoava o sinto da calça. O calção já tinha lá seu volume de ereção.
 Subiu mais sua saia então, deixando a mostra o traseiro. Ela encostou uma das mãos a parede então, os olhos ainda fechados. Também fechei os meus quando ouvi os primeiro gemidos. Me pareceram doloridos. Voltei a fechar os meus olhos então, respirando fundo, me imaginando naquele lugar, não entendendo o porque de tal brutalidade, sentindo o órgão irrigecer-se aos poucos. E fiquei ali por um tempo, a covardia de garoto me impedindo de adentrar o quarto, escutando aquele som com uma estranha aflição misturada a minha excitação. Abri os olhos por um tempo então, observando os movimentos rítmicos que ele fazia, um sorriso prazeroso nos lábios e as mãos ainda percorrendo seu corpo que me pareceu frágil. Ela cravava suas unhas na pele, deixando certos pontos avermelhados, a testa encostada na parede e o suor escorrendo frio. vamente os olhos então, a respiração ofegante. Entendi então a falta de ar que os homens mais velhos sentiam lá embaixo. Até se fazer silêncio. Ele subiu as calças então, afastando-se dela, a expressão agora séria.Virou-se para ele, tocando seu ombro com um meio sorriso. Inocente, apesar de ser quem era. O homem baixou os lábios por um tempo e selou aquilo com um toque frio de lábios. Deixou algo em cima do criado-mudo, saindo do quarto e me obrigando a esconder-me numa abertura na parede.












(Como se não fosse o tempo em que já fosse impróprio se dançar assim...)          


Sentou-se em sua cama intacta, um suspiro fundo enchendo os pulmões. Forçou um sorriso a si mesma, pegando o vestido que mais cedo estendera na cama e passando-o forte pelo rosto. A maquiagem fora borrada então, e logo não havia mais. Uma menina. O rosto era tão mais bonito sem todas aquelas tintas. Me fizera admirá-la ainda mais. A música lá embaixo começara a tocar novamente, um novo soar de um velho bandolim. Seu olhar então me pareceu distante, de certa forma sonhador... daria tudo para saber o nome daquela menina. Voltou a levantar-se, o vestido mais solto. Mirou os trocados deixados pelo homem em cima do criado-mudo, sem se importar muito. Girou, fazendo a saia do vestido rodar também. Não consegui me mover ao vê-la vir em minha direção. Esboçou um meio sorriso nos lábios.    
   - Noite. - cumprimentou-me, acenando com a cabeça e seguindo em direção as escadas. Respirei pesado, a olhando passar por mim, perdendo o chão sobre os meus pés, sentindo o coração palpitar, quase explodir. Tive de passar um tempo ali até me recuperar,  o som da voz que me soara como melodia latejava em minha mente. Por fim, me recompus, conseguindo caminhar até as escadas e as descer então, para parar no primeiro degrau. Novamente o meu anjo dançava, desta vez sozinha. O vestido girava juntamente a ela, um sorriso irradiado nos lábios, os olhos fechados. Era como se ninguém estivesse ali. Mas havia mais gente do que o comum. 
    - Meretriz! - gritou um homem então, apontando para ela, que parou de chofre. - Vadia! Maldita meretriz!
   - Amante do demônio. - berrou juntamente a outros ali presentes. - Prostituta! Meretriz!
  As bochechas dela rapidamente coraram violentamente, constrangida, humilhada, enquanto a mão de um dos homens ali presentes lhe acertavam o rosto, deixando-o instantaneamente avermelhados e os olhos marejados.  A moça que terminava de lavar a louça no balcão sorriu espontânea, sem olhá-la. Um outro a segurou pelos ombros então, sorrindo sádico a ela de certo modo. Soltou os braços então, afastando-se daqueles que a seguravam, enquanto o vestido lhe era puxado pela saia, deixando-a somente com uma espécie de segunda pele, transparente em seu corpo. Não o cobriu ... estava imóvel, lágrimas corriam-lhe pelo rosto. Ansiava por um choro que não deixaria escandalizar. E correu. Passou por aquelas pessoas então, trombando em algumas, me deixando ainda em tom covardemente estático na escada.E as ofensas não paravam. Depois de um tempo a segui. Quizera eu que fosse a única.





(Ela teimou e enfrentou o mundo, se rodopiando ao som dos bandolins)


E fora mais corajosa do que eu, um homem! Não... Um garoto. Enquanto aquelas pessoas todas saíam do bar, ela corria para onde seus passos pudessem levá-la. E depois de uma boa distância, parou, virando-se para eles. Sorriu, sarcástica e decepcionada. Eu estava longe. Mas ela sorriu, o que fez com que os homens ali perdessem o chão e o sentido de cada ofensa. Sim, ela era linda a este ponto, de hipnotizar o mais perfeito cidadão. Que pôde fazer-me apaixonar. Segui em frente assim, na mesma direção que ela, por entre as árvores ao lado daquele bar.




(Como fosse um lar, seu corpo, a valsa triste iluminava, e a noite caminhava assim...)

Parei ao perceber que estava na margem do rio, as árvores encobrindo maior parte, iluminando o lugar somente pelo brilho da lua.  A pele dela atingia seu tom cristalino perante aquele brilho prateado, a imagem refletindo na água. Pude ver lágrimas mancharem seu rosto enquanto uma vontade incontrolável de ir até lá e abraça-la, dizer que estava ali, me sufocava.  Mas o que ela faria ?!











(E como um par, o vento e a madrugada iluminavam a fada do meu botequim...)

Sentei-me em meio ao verde do chão, sem me importar com as pedras cravadas no mesmo. E perdi a noção do tanto de tempo que passei ali a contempla-la, no mais profundo êxtase. Ela mirou o céu então, o pouco que se podia ver por entre as árvores, os cabelos balançando de acordo com o vento, um meio sorriso dolorido tomando-lhe os lábios naturalmente avermelhados. A pele empalidecia na noite juntamente com a brisa predominante.  Cada vez mais forte o meu coração palpitava, por vezes me fazendo perder a respiração. Nunca pensei me sentir daquela maneira, abobado pelo que os outros falavam tão simplório... Uma mulher. Ou menina. Tão jovem quanto eu.




(Valsando como valsa uma criança, que entra na roda, e a noite está no fim...)


Um giro liberto fez com que a segunda pele que vestia rodopiasse junto dela, os olhos fechados e um suspiro fundo, como se todo o ar fosse preciso. Fiquei somente a espiá-la. Seu corpo. Cada curva a deixava mais perfeita, a pele pálida em contraste com os cabelos negros, enrolados. Tudo tão limpo, nítido ao meu olhar. Consegui sorrir a mim mesmo. Tocou a ponta dos pés na água, caminhando para dentro um tempo depois. A barra do vestido molhou, flutuando por sobre suas pernas. E andava sempre mais para o meio, o olhar sempre mais distânte, um sorriso que iluminava-a. Até desaparecer por entre as águas... Foi o tempo que tive para fechar os meus olhos e suspirar, rendido a ela. Encostei a cabeça numa árvore, enquanto sentia uma quentura tocar-me o corpo. Não sabia o que era aquilo... era um sentimento que machucava e me fazia sentir bem. E depois de um tempo perdido em pensamentos, abri os olhos. Ela ainda não havia regressado a superfície. Esperaria por ela, enfim, tomado por uma estranha coragem. Coloquei-me de pé então, caminhando lentamente até a claridade da lua, um suor frio escorrendo-me pela testa. E parei, olhando para a água.



(Ela valsando só na madrugada, se julgando amada ao som dos Bandolins)

Demorava demais a voltar. Foi quando me dei por mim... arranquei os sapatos então, adentrando também aquela água fria. E segui na mesma direção.  O frio na barriga que senti ao ver os cabelos flutuarem por baixo da água foi tão dolorido que cheguei a confundir com a dor de uma facada. Mas pensei no que fazia. Apenas segurei naqueles fios e o puxei para perto, pegando-a no colo. Enquanto caminhava novamente a margem, mirava seu rosto. O mais próximo que já estive dela. A encostei no chão assim que cheguei a terra firme. Encostei sua cabeça em seu peito, tentando escutar as batidas de seu coração... cheguei a delirar, pensar não poder escutá-lo por ser tão pequeno quanto ela. Loucura... Não havia respiração, nem mais um coração. Porém, mesmo sem brilho, sua beleza irradiava. Foi quando toquei nosso lábios então, num ato insano, enquanto a minha respiração intensificava-se.











Enquanto o sol clarea o horizonte, observo sua pele cada vez mais fria, sem brilho. E sei... posso ficar aqui o tempo que for, a adimirá-la, mesmo com a impossível correspondência de seu toque ao meu. Meu eterno anjo. 






























Por A. Sade
Baseado na Obra Bandolins, de Oswaldo Montenegro.

2 comentários:

  1. Eu amei o texto! Lindo demais! Tão delicado, tão sensível! Amei!

    ResponderExcluir
  2. Obrigada, Jessica! Sua opinião conta muito! *-*

    ResponderExcluir